Vista
  • 16 de Abril
  • Arte

RIPO

O artista Ripo em entrevista sobre sua carreira, vida e o envolvimento com o coletivo No New Enemies, para Ana Ferraz.

Para ler a matéria sobre o NNE basta baixar a Vista 23 aqui no site.

Apresente-se.

Ripo: Olá, sou Ripo. Como vai?


Por quê Ripo?

Ripo: Isso vêm de repo, que é uma expressão curta para reposse (repossess em Inglês, de tomar posse novamente). É sobre a idéia de ripossessar a vida e a arte. Tomando-as de volta através do faça-você-mesmo. Ser criativo e criar é algo que todos nós podemos fazer e quando fazemos algo, ficamos orgulhosos pois começamos a nos sentirmos independentes, o que nos leva a formar nossas próprias opiniões sobre as coisas e a acreditar nos nossos próprios julgamentos. Dessa forma podemos viver a vida da maneira que queremos, ou em alguns casos, podemos fazer nossa rua ficar da maneira que queremos. Droga, estou soando hippy agora?


Conte-me sobre a sua arte.

Ripo: Eu estou ligado à arte desde que tinha sete anos, eu acho. Eu tenho certeza que foi antes, mas nesse momento foi quando eu comecei a levar isso à sério, e você sabe, quando se tem sete anos tudo é muito sério. Começou como uma obsessão por ler e desenhar quadrinhos, quadrinhos de super heróis, que, aos 13 ou 14 anos, aumentou para uma obsessão por graffiti também, mas isso ao mesmo tempo que eu tinha aulas de arte na escola. Eventualmente, eu fui parar numa faculdade de artes nos Estados Unidos e estudei aquela baboseira por quatro anos, até que, finalmente eu me mudei para Barcelona e comecei a realmente focar na arte que eu estava fazendo e no que eu queria fazer. Agora a minha arte tem todas essas influências, quadrinhos, graffiti, talvez também um pouco da coisa acadêmica que permaneceu em mim, e toda a estética das cidades que eu morei e visitei. A maioria dos meus trabalhos está na rua, já que é onde eu acho que ele pode ter uma vida mais completa, e eu espero aumentar isso, achar novas maneiras de trabalhar, novos materiais, novos estilos, novos lugares, continuar aprendendo e o mais importante, me divertir com isso.


Quais suas influências na arte?

Ripo: Acho que as mais óbvias, pelo menos nas minhas letras, são antigas placas e sinais pintados à mão ou por outras técnicas que as pessoas usavam para ilustrar as palavras. Meus estilos vêm de todas as formas caligráficas e fontes que me chamam a atenção e que aparecem na minha vida diária. Eu nunca estudei formalmente tipografia ou caligrafia, e somente participei dum curso rápido de design gráfico quando eu tinha 18 anos. A maioria das minhas letras e os trabalhos caligráficos vêm de observação, adaptação, e recriação de algo pela minha maneira e pelas minhas opiniões estéticas, tornando-as novas por causa desse novo olhar. Eu amo caligrafia asiática, arábica, o estilo antigo Ingês, sinais pintados à mão do século 20, graffiti, e muitos artistas, tanto das ruas como fora delas, pessoas que vêm fazendo trabalhos impressionantes, visualmente e conceitualmente, com a linguagem escrita e a tipografia.


Quais suas influências na vida que podem ser vistas na sua arte?

Ripo: Minhas influências podem vir de qualquer lugar, como eu disse, quadrinhos, graffiti, skate, meus amigos, outros artistas, minhas cidades, notícias, política. Coisas diferentes me motivam em tempos diferentes. Eu tenho uma paixão por imagens e objetos feitos à mão, mas não me entenda mal, computadores são ótimas ferramentas e eu fico no meu muito mais tempo do que é considerado saudável, mas tem algo que eu aprecio mais ao ver uma pessoa criar algo com suas próprias mãos e direto das suas cabeças, numa forma que mostra imperfeições porque foi verdadeiramente feito por uma pessoa.


Conte-me sobre as exposições e eventos que você já participou. Você tem um enfoque diferente no seu trabalho de galeria?

Ripo: Eu já mandei trabalhos para um monte de exposições ao redor do mundo, mas nunca foquei num trabalho em espaço fechado. Um dos eventos mais fodas que eu fui sortudo o suficiente para participar foi o 11 Spring St. Show, que o Wooster Collective organizou no final de 2006. Havia pessoas que esperaram 5 horas na fila para entrarem no prédio. Eu nunca tinha visto, muito menos participado, de um evento tão significante assim. Agora em Março/Abril eu farei minha primeira exposição individual em Bruxelas, na Bélgica, chamada “... is what I meant to say”, como parte do novo programa de residência do No New Enemies. Vai ser uma exposição basicamente de desenhos preto e branco, muitos deles. A idéia é mostrar os processos por trás dos meus murais e de outros trabalhos na rua, que eu não posso mostrar em galerias, e experimentos gerais que aparecem nos meus desenhos. Eu quero preencher o espaço com isso e sobrelotar os visitantes com um pouco dessas palavras e expressões, mais ou menos como eu sou sobrelotado ao andar na rua, tentando pegar toda a merda visual que me cerca.


Eu vi que você já esteve em diversos países pintando. Quais países? Qual é o seu preferido e por que?

Ripo: Eu visitei e exibi minha arte (a maioria ilegal) em mais ou menos 36 países pela Europa, América do Norte, America Central e America do Sul. A maioria dos melhores lugares teve a ver com encontrar as pessoas certas, mas Nova York, Barcelona, Buenos Aires, São Paulo, Cidade do México, Bucareste, Istambul, Atenas e Milão, todos, tem coisas que realmente me interessam. O graffiti e a arte de rua nessas cidades são fora de controle e, em cada cidade, é único.


Conte-me sobre seu projeto “Reflect On”.

Ripo: O projeto Reflect On é sobre usar espelhos como plataforma para as minhas pinturas, o que adiciona um outro nível de comunicação e significa à elas. Quando você se olha num espelho que está pintado, qualquer imagem ou mensagem que está ali primeiramente fala direto com você, mas também simplesmente visualizar seu rosto (ou qualquer outra coisa que aparece na reflexão) se torna parte da pintura. Então, com relação às mensagens, ao ver um espelho com as palavras “4 sale” ou “A la venta” (à venda) faz você começar a pensar no que está a venda. Você? O carro que aparece? O prédio? O que isso está fazendo aqui e o que isso realmente quer dizer? Esse nível de abertura, movimento e mudança constante que acontece dentro de espelhos adiciona mais perguntas do que respostas neles.
Mesmo que, às vezes, eu os exiba em galerias e os venda, eles funcionam muito melhor nas ruas, porque eles usam e precisam de movimentação ao redor para terem significado.


Então você é parte do No New Enemies. O que você faz ou já fez em conjunto com eles?

Ripo: O No New Enemies é tipo um grupo meio solto de amigos e estranhos que fazem coisas legais e conhecem o Harlan. Nós somos como uma comunidade de artistas que, quando as coisas acontecem, podemos contar uns aos outros sobre projetos, trabalhar juntos nas coisas, tentar nos ajudar mutuamente e nos beneficiar do que estamos fazendo. Nós pintamos juntos, fazemos exposições juntos, tudo muito amarrado ao Harlan. Eu fui preso uma vez com o ROA, que eu havia conhecido somente uma hora antes através do NNE.


As mensagens escritas nos seus trabalhos são bem relacionadas ao conceito do NNE, de fazer as pessoas refletirem sobre o que estão vendo na rua. Você as cria enquanto está pintando? Copia de algum lugar? Elas vêm de onde?

Ripo: Elas vem de qualquer lugar, de como eu estou me sentindo no momento, de musicas que estou ouvindo. Coisas na minha cabeça que me incomodam, que eu amo, que me inspiram, que irão inspirar outros. Que farão os outros rirem, discutirem um problema político. Discutir a mídia que só fala merda, que só fala a verdade, que só conta mentiras, que confunde você, que deixa as coisas na linha. E, quem sabe, essas frases podem ter vindo do futuro.


Seu trabalho inevitavelmente causa algumas comparações, especialmente pelo fato do graffiti tradicional e de outros artistas focarem em letras também. Por que você acha que ele é diferente e único?

Ripo: Eu acho que isso tem a ver com os diferentes lugares em que eu tentei levar meu trabalho. Eu posso fazer algumas pinturas em madeira que pareçam antigas e que tenham aquele estilo de placas pintadas a mão, que diversas pessoas fazem agora, mas eu também já fiz grandes murais, desenhos com caligrafia solta, detalhada, ornamentada e ilustrações muito refinadas. Tem um monte de maneiras que eu quero explorar minha tipografia e fazer imagens. Eu acho que muitos artistas estão presos a uma única coisa. Eu quero pintar, comunicar, experimentar, e tudo ao mesmo tempo. E visualmente cada coisa vai mudar por cauda disso. Se meu trabalho lembra o trabalho de alguém hoje, talvez em alguns meses isso possa mudar. Mas eu ainda amo ver outros artistas explorar coisas similares; é inspirador ver o trabalho de outras pessoas talentosas.


O No New Enemies iniciou esse ano um programa de residência de artistas. Você será o primeiro artistas do projeto. Quando acontecerá? Como funciona esse programa de residencia e por que escolheram você para começar?

Ripo: Eu fui convidado a passar as duas últimas semanas de março em Bruxelas, criando trabalhos para uma exposição individual no espaço Mr. Ego. Basicamente eles me dão um suporte financeiro e me ajudam com qualquer coisa que eu precise para fazer meu trabalho para a exposição final. É uma ótima oportunidade e eu me sinto muito sortudo por terem me oferecido. Eu não estou muito certo do porque de ser o primeiro no programa, mas eu acho que tem a ver com um bom timing. Harlan estava me contando sobre isso, e ele sabia que eu estava livre, além de nós dois acharmos que é um bom momento para o meu trabalho, dando-me uma chance para focar na construção de um trabalho mais consistente para galerias e expor isso.


Você é de Nova York e agora vive em Barcelona. Desde quando? Poe que você escolheu essa cidade para viver?

Ripo: Eu sou de Nova York e é de onde vem a minha essência e está presente em tudo que eu faço, mas eu simplesmente não consigo viver lá agora. É muito caro, muita pressão financeira e no trabalho, muita competição e muito restritivo com o trabalho nas ruas. Eu moro em Barcelona desde 2005, mas eu visitei pela primeira vez em 2003. A cidade estava coberta por graffiti e murais naquela época e eu a senti verdadeiramente viva e livre. Eu sabia que queria ser parte da comunidade e das ruas daqui, então por sorte eu encontrei um trabalho aqui e me mudei, sem conhecer ninguém e falando muito pouco espanhol. Claro que no ano que eu cheguei as novas leis anti-graffiti começaram e toda a cidade foi pintada de cinza. Mas isso também foi uma boa oportunidade para colocar meu trabalho nas ruas daqui, tinha menos pessoas fazendo e as pessoas notavam mais qualquer coisa que aparecia na rua.


Você é envolvido com skate? De que forma e quanto?

Ripo: Eu andei de skate por volta de 9 ou 10 anos. Foi a minha vida por anos, mas eu não tive muito tempo e energia para isso ultimamente. Eu recém tinha comprado meu primeiro skate em anos no verão passado. Era um shape Shut, rodas Earthwing, trucks Indy, tudo novo e tudo maravilhoso. Daí eu fui roubado um mês depois e não arrumei outro skate desde então. Mas espero ter um novo em breve.


Eu sei que você trabalha para a revista Modart. Qual a sua relação com a revista e como aconteceu?

Ripo: Eu comecei a escrever para eles porque eu estava viajando e muito conectado às pessoas e a cena da arte dos lugares que passava. A primeira coisa que eu fiz foi uma entrevista com o meu amigo Anthony Lister. A revista gostou e foi de onde expandimos para mais artigos. Agora que a revista impressa acabou, eu estou trabalhando no blog deles. É um trabalho de meio período, no qual eu faço o meu horário, posso fazer de qualquer lugar e falo de arte e de outras merdas que me interessam. Não é um mal negocio.


Algo mais?

Ripo: Eu espero que meu trabalho inspire outras pessoas à criarem algo. Arte na rua é para todos e ver outros fazendo isso inspira e faz você perceber que qualquer um pode fazer. Basta ter uma idéia, alguns materiais baratos e um lugar para tentar e você está no caminho. É por isso que as ruas sempre foram o melhor suporte e inspiração para mim.

Por. Ana Ferraz

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