- 12 de Junho
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EU SEREI A HIENA

Formado no começo dos anos 90, o Eu Serei A Hiena tem membros de bandas de distintas vertentes do hardcore, como Ratos de Porão, Dance Of Days e Discarga. Porém, sua sonoridade – muitas vezes instrumental – vai do post-hardcore ao free jazz, como pode ser conferido em “Hominis Canidae”. Lançado pela Travolta Discos, o segundo CD traz arte inovadora (assinada por superxoxo) num digipack em formato de hiena e 18 faixas, algumas com convidados como João Branco, do ordinaria hit tocando violoncelo, e Daniel Ganjaman, do Instituto, teclado. Falamos com o baixista Wash para entender melhor a constante transformação da Hiena.
Todos vocês fazem ou fizeram parte de bandas de diferentes vertentes do hardcore. Como vocês se juntaram e o quê a bagagem das outras bandas reflete no ESAH?
ESAH: Nos juntamos no começo dos anos 90, por bandas como Rethink, Discarga e Nitrate Kid, todas vindas do punk, indie – odeio essa palavra – e hardcore. É a nossa escola e é de fato o que sabemos fazer. A construção das músicas é sempre baseada no formato punk/hardcore, daí vamos dando outra cara pra ela conforme vai evoluindo o andamento. Então inevitavelmente o ESAH sempre vai ter um dedo de punk/hardcore, mesmo que tentemos fazer um jazz mais apurado possível, por exemplo. Não tem como fugir do passado! (risos).
Como definir a sonoridade do ESAH?
ESAH: Acredito que isso ainda é muito difícil pra gente responder, porque essa definição em si ainda estamos trabalhando e definindo... Sei lá, acho que nesse CD demos um passo a frente, mas não significa que dê pra dizer que somos hardcore, post-hardcore, jazz noise, punk ou qualquer outro rótulo que caiba esse som dentro. De um modo geral, acho que somos uma banda de rock clássico com um pé no free jazz.
Ainda definindo vocês como um todo, o quê explica melhor o ESAH: a sonoridade de “Hominis Canidae” (o disco) ou a letra da faixa homônima?
ESAH: Acho que a sonoridade do disco, com certeza. O nosso lance é o som, acima de tudo, não as letras. As letras podem ser vistas como um complemento do som, um instrumento a mais ressonando e dando algo pra pensar ou sentir, mas o importante são os acordes, as batidas, as camadas sonoras que fazemos, auxiliados ou não pela voz em algumas músicas. A letra [de “Hominis Canidae”] dá sim um significado maior pro nome da banda, algo mais concreto além desse negócio de “um nome retirado de uma frase de uma outra banda”, entende?
Aliás, Hominis Canidae é, por acaso, um nome científico ou algo do tipo?
ESAH: Tem uma cara de nome científico sim, mas é um nome inventado (risos). Não existe nenhuma espécie ou subespécie que una hominídeos com canídeos, mas imagine por exemplo o que seria um lobisomem, se ele realmente existisse e fosse englobado numa classificação de espécies? Um Hominis Canidae! Seria algo que até Darwin levantaria do túmulo pra conferir, enfim! (risos).
Blade Runner, Dostoiévski e Coltrane são referências encontradas no CD. Quais são as principais influências?
ESAH: Penso bastante em cinema e literatura pra dar corpo a uma música, assim: se eu quisesse fazer uma trilha pra um filme, com a cara do ESAH, como seria? E sempre sai algo. Ou então quando já temos um som pronto e temos que dar um nome, penso no que ele parece. Um filme? Um livro? Qual personagem de qual livro ou filme estaria ligado com a agressividade ou a complacência ou ainda a calmaria que esse som passa? E saem as influências. Além dessas, posso citar Emil Cioran, F. Scott Fitzgerald, Noam Chomsky, Guimarães Rosa, irmãos Grimm, William Gibson, Burroughs... A lista é grande (risos).
Curiosidade, quem são os autores das letras?
ESAH: Quem canta a música é quem escreveu a letra, sempre assim. O tema é livre: é o que a pessoa quer dizer, politicamente ou não, naquele momento. Claro que não queremos ser ligados a movimentos ou idéias extremistas ou de mal gosto em geral, mas confiamos nas pessoas que convidamos a fazer a letra designada.
As músicas instrumentais são bem cativantes, eu mesmo fico criando melodias vocais na cabeça. Por que a opção de não ter vozes?
ESAH: Esse, por exemplo, é um bom motivo pra não colocar letras e vozes na maioria delas: quem ouve tem a liberdade criativa de inventar outras coisas, de participar, interagir... Indiretamente a pessoa interage com o som, e às vezes se alguém aparecer depois cantando essa música que antes não tinha voz, você vai ficar pensando, na sua cabeça ou só pra você: “pô, isso tá errado! A música não é assim! A que eu criei é mais agradável, ou menos, ou simplesmente diferente!”. Enfim, o que quero dizer é que com a música instrumental o ouvinte tem essa opção, de “participar” da música, da sua forma. Bom, isso é um motivo. O outro é que música instrumental é bem legal, né! (risos).
O CD é de um capricho ímpar, é nítida a preocupação com a produção, instrumentos e equipamentos diferenciados e arte inovadora. Não dá pena ver que tem quem simplesmente faça o download do disco e se satisfaça assim?
ESAH: No começo pensei assim também, não vou ser cretino de dizer que não ligo de gastar dinheiro com gravação e processos de estúdio e não ganhar nada com isso. Mas a internet hoje dá a opção de ganhar o mínimo que sua música pode oferecer pro público; é aquela coisa que o Radiohead fez com o “In Rainbows”: quanto a minha música vale pra você? Um centavo, R$ 10? Você decide! Existem iniciativas como a da TramaVirtual que remunera o artista por download feito, isso é realmente uma revolução no mercado. Além do que, isso fez com que os grandes músicos deixassem de ter esse monopólio sobre o que todos ouvem e tirassem a bunda da cadeira pra viver exclusivamente do lucro dos shows, isso foi muito bom! E outra, não dá pra reclamar da internet, porque sem ela nós [bandas independentes] ainda estaríamos na Pré-História da divulgação, como era nos anos 90, com fitas e CDs de mão em mão, carta... Acho que tem banda daquela época que se existisse hoje em dia teria sido muito bem sucedida em termos de divulgação e comercialização por causa da internet.
O quê é “Vai baixando Nemo, né?”, fiquei surdo ou a faixa é vazia? (risos).
ESAH: Essa faixa é preenchida com ruídos supersônicos que só canideos podem ouvir! (risos). Brincadeira, essa faixa é vazia mesmo até quase os últimos segundos, quando tem a voz do Nino (baterista) no finalzinho dizendo isso aí, “vai baixando nemo (mesmo), né?”; deve ter sido a única vez que o Nino gravou – sem querer – voz numa música! (risos).
Com a situação atual, será que a Hiena ainda consegue rir de algo?
ESAH: Pois é, hoje em dia não tem muito do que rir e a Hiena meio que representa bem esse aspecto do momento mundial: um animal soturno, traiçoeiro, que come carniça e ainda consegue rir disso! É a cara da sociedade em que vivemos hoje em dia, é a cara da convivência das pessoas, da importância que dão uns pros outros e pro planeta em que vivemos. O negócio chegou a um ponto tão critico que o novo perfil do cretino moderno é ser ecologicamente correto: “verde” e não fumante. Todo mundo tem que ser assim pra ser bem visto, mesmo que faça tudo ao contrário quando chega em casa... Mas fazer o que, é da natureza humana ser destrutivo assim. E poderia ser pior: poderiam ser os nossos netos...
Contatos: eusereiahiena@gmail.com
Fotos: Samuel Esteves
Por. Ricardo Tibiu















